Stephen Hawking completou 70 anos no último sábado (7). E ninguém
discute que se trata de uma marca e tanto. Talvez não para um indivíduo
sadio, mas certamente para quem recebeu a notícia de que não viveria
para completar 25.
A doença que o acomete, a esclerose lateral amiotrófica, costuma matar
entre 20 e 48 meses após o aparecimento dos primeiros sintomas.
Quando Hawking recebeu o diagnóstico, em 1963, aos 21, seu médico disse
que ele não chegaria a terminar seu doutorado. Não só ele contrariou
essa previsão como passou 30 anos como professor e pesquisador da
Universidade de Cambridge. Sua aposentadoria veio em 2009.
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O físico Stephen Hawking em sua sala na Universidade de Cambridge; físico completou 70 anos |
IMAGEM DO GÊNIO
Especializado em física teórica e cosmologia, Hawking dedicou sua
carreira a desvendar alguns dos mais misteriosos segredos do Universo. O
fascínio induzido por sua área de estudo, somado ao talento para
escrever livros de popularização da ciência, tornou sua figura
irresistível para a mídia. Não tardou para que ele fosse catapultado ao
status de "gênio preso a uma cadeira de rodas".
Seu maior feito como pesquisador, publicado em 1974, foi combinar os
dois alicerces da física -a relatividade geral e a mecânica quântica-
para descobrir que buracos negros somem com o tempo.
Esses estranhos objetos nascem quando uma estrela com muita massa esgota
seu combustível e implode em razão de seu próprio peso. Contraído até
seu limite extremo, o astro gera um campo gravitacional do qual nada
pode escapar -nem a luz.
Quando esses objetos foram teorizados, imaginava-se que seu destino
fosse crescer sempre, conforme outros objetos caíssem neles e
aumentassem sua massa.
Contudo, ao combinar efeitos da física de partículas, Hawking concluiu
que, bem na fronteira matemática que divide o mundo exterior do ponto
sem volta, há a emissão de uma suave radiação, alimentada pelo conteúdo
do próprio buraco.
A batizada radiação Hawking era um "vazamento" de energia do buraco negro, que seria dissipada até a evaporação do objeto.
"Hawking só não ganhou um Nobel porque ninguém conseguiu confirmar por
observações a existência dessa radiação", diz George Matsas, físico
relativista da Unesp.
Apesar do sucesso, muitos físicos acreditam que a reputação de Hawking
foi turbinada muito mais pela fama do que por suas realizações no campo
da ciência.
"Ele é um físico excelente numa situação incomum", diz Nathan Berkovits,
pesquisador americano que trabalha na Unesp. "Mas eu não o colocaria
numa lista dos dez melhores físicos vivos."
O excesso de confiança em Hawking chegou a contagiar até ele próprio,
levando a um dos maiores "micos" recentes da física. Em 2004, ele
anunciou ter solucionado um dos maiores problemas teóricos ligados aos
buracos negros, conhecido como "paradoxo da informação".
Entretanto, o físico foi incapaz de demonstrar sua afirmação e hoje vê o episódio como um embaraço.
A despeito das dificuldades crescentes impostas pela esclerose lateral
amiotrófica -que vai tirando os movimentos do corpo e leva à morte
impedindo a flexão torácica que permite a respiração-, Hawking casou-se e
separou-se duas vezes. Tudo após o diagnóstico.
Teve três filhos em seu primeiro casamento e, quando ficou impedido de
falar em razão de uma traqueostomia de emergência, passou a se comunicar
por meio de um sintetizador de voz.
Hoje, para falar, ele move a bochecha a fim de escolher palavras numa
tela. O computador detecta o movimento e forma frases. Ouvir uma
resposta dele, das curtas, a uma pergunta pode levar vários minutos. Mas
ele ainda está lá, e a mente continua aguda como de costume.